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Martha Graham Dance Company – O significado do movimento
Inês Bogéa
A Martha Graham Dance Company, uma das mais antigas e celebradas companhias de dança das Américas, fará uma turnê no Brasil, apresentando-se no Rio, em São Paulo, Brasília, Salvador e Belo Horizonte. Martha Graham (1894-1991) foi uma das principais figuras da dança moderna. A técnica que desenvolveu, uma espécie de antítese do estilo clássico, revolucionou nossa maneira de dançar e ver a dança.

Durante sua carreira teve colaboradores de grande renome como o escultor Isamu Noguchi, estilistas como Donna Karan e Calvin Klein e compositores como Aaron Copland e Samuel Barber.

Um dos pontos principais de seu trabalho é que ela “combina físico com o emocional, e cada movimento tem um significado”, explica Janet Eilber, 54, recém nomeada diretora artística da companhia. Em entrevista por telefone, de Los Angeles, Eilber conta que os brasileiros poderão ver sete peças, apresentadas em dois programas. Juntas, compõem “um mapa da dança de Graham” – a primeira peça é de 1916 e a mais recente de 1981.

Ambos os programas se iniciam com quatro solos: Serenta Morisca (1916), Lamentation (1930), Satyric Festival Song (1932) e Deep Song (1937). Procuram mostrar “como Graham mudou o mundo da dança”. O primeiro foi coreografado por Ted Shawn (1891-1972) seu professor. Ali se vê “de onde Martha veio e com que tipo de dança rompeu e rejeitou. Porque é uma dança muito exótica, de reis e rainhas, quase um entretenimento. E Martha queria expressar os problemas e as questões humanas”.

Lamentation é um solo emblemático de Graham, em que a solista desliza num tubo de jersey, construindo o espaço. Como ela dizia, “o espaço é nosso parceiro invisível”. Eilber completa: “é pura emoção, expressa em movimentos viscerais”. Em Satyric..., por contraste, “ela ri da sua própria imagem demasiadamente séria a respeito da arte”. E o quarto solo, Deep Song, é um lamento com conotações políticas, em reação à Guerra Civil Espanhola.

As outras peças a serem vistas por aqui são Diversion of Angels (1948), que mostra “infinitos aspectos do amor”; Chronicle-Sketches (1936) e Acts of Light (1981), uma peça que “traz lembranças dos quatro primeiros solos, é um olhar sobre toda sua carreira”.

Segundo Eilber, as obras de Graham podem ser divididas em diferentes períodos. Nos anos 30, eram somente mulheres na companhia e o foco estava nas questões sociais e políticas do entreguerras. Já nos anos 40, o elenco tinha homens e mulheres e o maior interesse era o poder do indivíduo. Nos anos 60 e 70, amplia sua arte, com peças mais abstratas. Por fim, nos anos 80 apresenta uma arte “onde as experiências humanas e suas tragédias pessoais [Graham viveu anos deprimida e teve problemas de alcolismo] foram incorporadas à dança”.

Desde os anos 70 até sua morte, em 1991, Graham manteve uma relação com o fotógrafo Ron Protas, 50 anos mais jovem do que ela, para quem deixou sua herança. Por um período de dez anos, Protas assumiu o controle da companhia, começando enquanto Graham ainda era viva. Neste tempo a companhia sobreviveu, em boa medida, pelo apoio de fãs como Jackie Onassis, Liza Minnelli, Donna Karan e Madona. Apesar disso, em 1999 a companhia foi obrigada a vender seu espaço na rua 63 East em Nova York.

Em 2000 Protas entrou em litígio com os diretores da companhia, impedindo que o repertório de Graham fosse dançado. A briga na justiça se estende desde então. Até 2002, a companhia ficou sem poder dançar; e só em 2005 ganhou o direito de mostrar peças de Graham.

A diretora ressalta que “pela primeira vez na América ou, quem sabe, no mundo, uma companhia de dança é como um museu ou uma coleção de arte: uma coleção de grandes peças, que emocionam a platéia até hoje”. Martha, quando era viva, “mudava tudo para tornar uma peça mais forte para a nova geração, e nós continuamos nesse espírito”. Como dizia ela, “nenhuma arte pode viver e passar intocável através de um período tão vital como esse. O homem agora se descobre a si mesmo como um mundo”.
in Folha de S.Paulo, 11.10.2005
 
 

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