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Nijinski vivo
Inês Bogéa

É um sucesso a exposição que homenageia Vaslav Nijinski (1889-1950), no Museu D’Orsay (Paris). Um dos grandes mitos da dança moderna, virtuose que encantava as platéias com sua técnica e expressividade, Nijinski foi retratado por vários artistas de sua época (de Rodin a Cocteau, passando por Modigliani e Kokoschka). O empresário Diaghilev, os compositores Stravinski e Debussy, o cenógrafo Leon Bakst: toda uma constelação de talentos gira em torno do bailarino, que acabou a vida precocemente, num hospital para doentes mentais. É um mundo inteiro, que até certo ponto inaugura o nosso, e que se pode ver, monumental e resumidamente, na exposição de Paris. Bailarino e coreógrafo, Nijinski estreou em São Petersburgo em 1907. Dois anos depois, participou da primeira turnê dos Balés Russos de Diaghilev (1872-1929), deixando extasiados os públicos de Londres e Paris, com as coreografias Le Pavillon d’Armide e Le Festin. Seu trabalho alteraria definitivamente os rumos da história da dança. Definiu novos parâmetros, pelo rigor técnico, a audácia e a beleza de suas interpretações. Suas coreografias L’Après-midi d’un Faune (música de Debussy, 1912) e Le Sacre du Printemps (música de Stravinski, 1913) criaram polêmica, ao subverter os códigos estabelecidos da dança e abrir uma nova via para as coreografias modernas. A partir de 1918, Nijinski começa a apresentar sinais de desequilíbrio mental. Vive durante 30 anos em clínicas, até sua morte, em Londres (1950). Meses antes de sua internação, escreve os “Cadernos”, onde avalia episódios de sua vida e revê suas relações; ali expõe, também, suas idéias sobre a dança, junto com seus medos e aspirações. A exposição do Museu d’Orsay conta com cinco salas, reunindo fotografias de dança e da vida de Nijinski; figurinos, estudos de cenário e de movimento; programas e esculturas; e desenhos do próprio Nijinski. Um vídeo registra esforços de recomposição de sua coreografia L’après-midi d’un faune. São trabalhos feitos a partir de suas anotações coreográficas, e revelam os novos caminhos que ele já desenhava para os corpos no espaço. Em particular, há uma pesquisa de anotação coreográfica através da informática, realizada por Armando Menicacci e Simon Hecquet. Para além de seu interesse específico, o vídeo traz à tona muitas questões sobre a possibilidade de transmissão de movimentos da dança. Fotografias de Adolph De Meyer, mostrando Nijinski em L’Après-midi d’un Faune, o traz vivo diante de nós. E os programas dos Balés Russos tornam concreta, tangível, a realidade desse tempo, nos nomes amarelados de estrelas da época, como Anna Pavlova, Tamara Karsavina e Michel Fokine. Uma estatueta de Nijinski, por Rodin, ultrapassa o limite da matéria e nos põe frente a frente com a força do bailarino. Seus próprios desenhos, pelo contrário, ressaltam involuntariamente a fragilidade do homem. Essa força e essa fragilidade foram grandes o bastante para inventar um mundo. A história desse bailarino e coreógrafo, que foi tudo na vida e acabou com nada, sugere lições de outra ordem e tornam a exposição muito mais do que uma simples fascinante coleção de relíquias da dança.

in Folha de S.Paulo, 22.01.2001
 
 

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