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Marilena Ansaldi - Desassossego
Inês Bogéa
No cenário branco, uma pessoa de negro risca o espaço como tinta sobre o papel. “É mais teatro do que dança. A dança está no ser, está na respiração, no falar com o corpo”, explica Marilena Ansaldi sobre Desassossego, em que é dirigida por Marcio Aurelio.
Aurelio comenta que ela “trouxe para a cena a performance autoral. Se o suporte é a literatura, o que interessa é a cena, com rigor e qualidade. Mas a articulação do discurso aqui não tem nada de literário. A poesia é da ação, do movimento. Aquele rigor da formação de bailarina existe sempre, mesmo quando não está a serviço de uma linguagem coreográfica habitual”.
Um espaço branco, um muro. “Chegar no muro é chegar no limite, ao mesmo tempo suporte do que se tem de transpor”, continua o diretor. “Mas é completamente abstrato. Num determinado momento do espetáculo, ela consegue imaginar o espaço como uma imagem além.”
“A vida é oca, a alma é oca, o mundo é oco. [...] Entre mim e a vida há um vidro tênue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar. Os meus sonhos são o refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio”, diz Ansaldi, em cena baseada no Livro do Desassossego de Fernando Pessoa. Ela buscou nesses textos “o sentido de saber descrever as sensações. Esse livro é quase um diário. Eu tinha um roteiro e pincei dali algumas coisas que serviam para dizer o que estava acontecendo comigo --coisas relacionadas ao teatro e à minha emoção, esse nada, esse não querer mais ser, esses 12 anos que eu me perdi de mim”.
É sua segunda parceria com Aurelio, “uma simbiose”, define a bailarina. “Ele tem uma grande inteligência de sentidos. E sabe me ler tão bem, a gente caminha junto. Foram dois meses de ensaio em harmonia, uma felicidade”.
Na peça, a caminhada dos dias comuns já foi transposta e o círculo infinito de desejos e angústias ecoa na cena. “Sinto o tempo com uma dor enorme. O tempo! O passado! Aquilo que fui e nunca mais serei. [...] Abre-me um abismo na alma e um sopro frio da hora de Deus roçar-me a face lívida”.
No palco, vem a memória de um tempo duro, mas também do tempo presente e da capacidade adquirida. Aqui retornam os temas e os fantasmas da existência de uma grande artista, moldados em arte plenamente realizada. O relato sobre sua criação quase poderia estar no texto da peça: “Tanto me exteriorizei dentro de mim, que dentro de mim não existo mais senão exteriormente. Sou a cena viva, onde passam vários atores representando suas peças”.
Ouvem-se em cena trechos das óperas que fizeram parte de toda sua vida. Ansaldi: “A arte consiste em fazer os outros sentirem o que sentimos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial liberação. Mas na arte não há desilusão, porque a ilusão foi admitida desde o princípio. E na arte não há despertar, porque finalmente na arte não estamos dormindo, muito embora sonhando”.

in Folha de S.Paulo 30/05/2005, 24.04.2010
 
 

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