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Marilena Ansaldi - Multidões de si mesma
Inês Bogéa
Exasperado combate contra uma existência avessa aos apelos da subjetividade. Que é também combate contra si mesmo: contra o cansaço, o desassossego, o mal-estar de se saber sem mola para a ação. Depois de 12 anos fora dos palcos, Marilena Ansaldi, grande nome da dança paulista, retorna com um espetáculo concebido a partir de trechos do Livro do Desassossego de Bernardo Soares. Dirigida por Marcio Aurelio.
Tudo começa no silêncio: uma figura de preto se dobra sobre si mesma, por trás de um guard-chuva, e se interroga: “Meu... Deus..., meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? [...] O que é este intervalo que há entre mim e mim?”. No fundo do palco, há um muro branco, alegórico limite que bloqueia e ao mesmo tempo barreira a se transpor.
Ao longo de 50 minutos de um monólogo minuciosamente coreografado, numa linguagem que atualiza referências múltiplas do teatro e da dança dos últimos 50 anos, vão perpassando temas que fizeram parte dos espetáculos de Ansaldi, em contraponto com elementos conhecidos de sua vida pessoal --fantasias, lembranças, dores. Bailarina de formação, com muita vivência de clássico e de dança teatro, Ansaldi ressurge agora mais atriz do que nunca. O corpo é o veículo da expressão, que impulsiona as palavras.
Do Livro do Desassossego: “Tudo me esbofeteia e me escarnece. Conviver com os outros é uma tortura para mim. Eu tenho os outros em mim. [...] Sozinho, multidões me cercam. Não tenho para onde fugir a não ser que fuja de mim”. Recitando uma bem costurada colagem de frases como essas, Ansaldi encena expressiva e plásticamente toda uma galeria de personagens: multidão de si mesma, uma “cena viva, onde passam vários atores representando suas peças”.
As palavras avassaladoras de Pessoa ressoam com todo seu peso num tempo espaçado e preciso, muito bem controlado por Aurelio. Cada detalhe, cada gesto se desdobra, ao mesmo tempo em que busca uma simplicidade beckettiana essencial. Também a luz se divide em nuances, no branco do muro e do piso, enquanto seus reflexos iluminam e sombreiam as coisas. Com gestos escultoricamente talhados, Ansaldi desenha um espaço que é externo e interno a ela ao mesmo tempo, expandindo sua própria forma com os tecidos que prolongam seus braços e, no fim, com a máquina de caminhar onde se perde afinal dos nossos olhos.
Os fragmentos do texto são ouvidos, muitas vezes, com fragmentos de músicas delicadamente por trás --de Astor Piazzola a óperas de Verdi (menção a sua infância, cercada de óperas) e, no fim, a uma ária de A Paixão Segundo São Mateus de Bach. É a linda ária para contralto com violino solo, “Erbarme dich” (Tem piedade), fechando aquela conversa com Deus que deu começo a tudo, agora em tons de possível aceitação humana de sua própria humanidade.
O resto, como ela mesma diz, citando Hamlet, o resto é silêncio. Mas o resto também somos nós, recolhidos depois ao teatro vazio de cada um, tão cheio agora da imagem poderosamente viva de Marilena Ansaldi.

in Folha de S.Paulo 04/06/2005, 24.04.2010
 
 

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