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Conversa com criadores
Inês Bogéa
A estreia de Os Duplos, do coreógrafo Maurício de Oliveira, com iluminação e espaço cênico de Wagner Freire, figurinos do próprio Maurício e de Jum Nakao, e música de André Abujamra para a São Paulo Companhia de Dança, em São Paulo, está marcada para o dia 7 de maio, às 21h30, no Teatro Sérgio Cardoso. Porém, a estreia mundial da obra aconteceu na 19ª edição do Festival de Curitiba, no dia 27 de março, data em que a equipe de criação conversou com Inês Bogéa, uma das diretoras da Companhia, sobre o processo de trabalho e as idéias envolvidas na construção do espetáculo. Confira os melhores trechos.

Maurício: A idéia do balé Os Duplos surgiu a partir de um estudo sobre o funcionamento de uma colméia: um paralelo do que acontece dentro de uma colméia e o funcionamento dentro de uma sociedade humana. Isso se expandiu e a idéia ficou mais abstrata, dando vazão a outras coisas.
Foram praticamente cinco meses de criação, que é uma raridade. Os Duplos nasceu de um desejo de ver como minhas idéias e vontades reverberam no corpo dos cocriadores que são os oito bailarinos (Ana Paula Camargo, Irupé Sarmiento, Allan Falieri, Joca Antunes, Milton Coatti, Rafael Gomes, Samuel Kavalerski, Yoshi Suzuki). Suas inquietações e interrogações me forçavam a traçar um caminho muito claro pra obra, até que, em determinado momento a obra começou a ser direcionada por ela mesma, e nesse ponto onde o coreografo não tem mais domínio algum sobre a obra, ela já não é mais sua, pertence ao mundo.

Inês: Você criou em cima de varias músicas e depois convidou um artista para fazer a trilha sonora. No momento do encontro entre esse artista, você e os bailarinos, o trabalho aconteceu no tempo suspenso do silêncio...

Mauricio: Logo que conheci o André Abujamra tive a impressão de que já o conhecia, e ele provavelmente deve ter tido a mesma sensação, tanto que trocamos pouquíssimas palavras. No primeiro encontro, o que fiz foi apresentar para ele o esqueleto da obra praticamente pronto, e ele, com a oportunidade de assistir a um ensaio somente, criou a trilha. É incrível uma pessoa com a habilidade de, com um momento, absorver o trabalho nessa intensidade a ponto de me dar retorno do meu próprio sentimento e de fazer amalgamar do sentimento dele com o meu.

Inês: Como se dá neste trabalho a relação da dança com a música?

Mauricio: Em geral eu costumo deixar a trilha como um pano de fundo para obra, ela pincela a obra, não chega a narrar algo, a ilustrar. Mas em Os Duplos tenho momentos claríssimos de encontro de movimento e música, a obra ficou totalmente amarrada na música.

Inês: Outro parceiro dessa criação é o Wagner Freire, iluminador, que criou também o espaço cênico.

Mauricio: Trabalhei com Wagner Freire quanto fui assistente de Alessio Silvestrin no primeiro trabalho montado pela Companhia, o Polígono, e aos poucos fui me aproximando dessa pessoa extremamente sensível. Ele é de uma perspicácia, de uma capacidade de observação do movimento; ele consegue perceber a energia, tem essa habilidade de captar com pouquíssimas palavras a intenção em relação ao trabalho. O Wagner criou para Os Duplos algo extremamente impressionante, com muitos cortes, dialogando diretamente com a idéia do Jum Nakao em relação ao figurino. A luz flutua na intensidade dos graves ou dos agudos, dança junto com a trilha e não somente acompanha a movimentação dos bailarinos, mas dança na música com eles.

Inês: Sua idéia pra iluminação na verdade acabou se transformando numa concepção cênica.

Wagner: Sou uma pessoa que trabalho muito na intuição, falo muito pouco mais ouço muito, vou captando todas as informações possíveis e a imagem mais forte foi a da sociedade de abelhas, da vida e da morte. A criação do espaço cênico, que para mim é uma novidade, aconteceu na intenção de agasalhar a cena. Ao dar o traçado da colméia, a gente acaba tendo sempre a geometria muito forte. A forma contou muito: um quadrado de luz, muito marcado é muito duro também, como equilibrar isso então? Inseri os refletores que aconchegam.
A coreografia tem um trajeto, um desenho que obedece do inicio ao fim; tem vários círculos, os ciclos de vida dentro dessa colméia. Usei as cores primarias mais simples de lidar com a pele; trabalhei os relevos com luz e sombras, intensidades e texturas diferentes. Usei um branco mais quente e um azul, dando a idéia desse ciclo de vida da colméia: do dia e da noite.
Ao criar a luz penso no diálogo com o artista. A luz desperta um sentimento necessário, ou pelo menos ajuda, ajuda na sensação, não só do publico, mas essencialmente do artista.

Inês: O figurino é composto por dois “tempos”: o primeiro de uma pele fina, transparente idealizada por você Maurício, e o outro uma segunda pela facetada com volumes, idealizada por você Jum e realizada em parceria com Bruna Valente, Joceli Oliveira, Juliana Zampini, Patricia Grossi e Roberto Slusarz Filho.

Mauricio: No início eu proponho em Os Duplos a transparência, e ela é literal, vem no figurino nessa segunda pele, como se ali eu estivesse forçando os artistas a assumirem o seu organismo, a sua estrutura da forma como ela é, sem medo e sem vergonha de ter um corpo tão peculiar. No segundo momento, os corpos são cobertos por uma camada de espumas, dos figurinos facetados do Jum Nakao, nos colocando diante do tempo contemporâneo. Eu percorri o caminho da circularidade e ele percorreu os caminhos dos ângulos. E é muito interessante ver agora na obra o momento exato onde esses círculos se integram aos ângulos. Esse encontro de opostos traz uma qualidade imprevisível e incontrolável para a obra.

Jum: Desde que me encontrei com o Maurício, perguntei quais eram as intenções por detrás do espetáculo para que eu pudesse criar uma sinergia, potencializando suas intenções com o figurino.
Foi muito importante essa construção de linguagem a partir das luzes, do som, dos bailarinos, do figurino, formando um todo único. Isso é um pouco até do que, para nós, esse trabalho significa. Que é essa organização de talentos, como o próprio convite da Companhia para artistas de áreas diferentes se integrarem para criarem um espetáculo único. Percebi que era esse o mote da Companhia quanto trouxe o André, o Wagner, o Maurício, e pensei em fazer o mesmo dentro do micro que seria nossa parte. Então convidei mais cinco talentos para fazer esse processo acontecer.
E tudo começou da questão da fragmentação do movimento, da explosão, da desconstrução desse corpo. O primeiro estudo eram polígonos, que eram sobreposições da pele dos corpos. E, num processo de afinação com o Maurício, percebemos o quanto, para ele, era importante a questão da pele. E então chegamos a um resultado final que é a própria pele pensada de forma volumétrica. Num determinado momento, nos deparamos com a relação do bailarino com o próprio corpo, como ele descobria as possibilidades daquele corpo que ele reconhecia e desconhecia – um contraponto, o tempo inteiro. O estranhamento e o reconhecimento criando outras possibilidades. Havia também a ideia de criar esculturas que se complementam e se dissolvem no espaço. Então, se deu essa relação de trabalho em que, não era só o corpo de um bailarino, mas o corpo de todos.

Os Duplos, de Maurício de Oliveira poderá ser visto na temporada da São Paulo Companhia de Dança, no Teatro Sérgio Cardoso, de 7 a 9 de maio, ao lado de Polígono Revisitado, de Alessio Silvestrin. A Companhia também apresenta entre os dias 13 e 16 de maio, a estreia de Theme and Variations (1947), de George Balanchine, e Serenade, também do coreógrafo.
in Revista Dança Brasil, maio 2010
 
 

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