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Ivonice Satie - uma artesã do corpo
Inês Bogéa
Imagens que nascem de um desdobramento contínuo e vão revelando a potência dos lugares: emblemas da arte de Ivonice Satie. Na sua trajetória, os elementos da dança ganham outras facetas, associam-se, interpenetram-se e produzem novas configurações, voltando-se sobre suas próprias capacidades expressivas, mas sempre a serviço de algo maior até do que a dança.
Nascida em 17 de novembro de 1950, em Bilac (SP), filha de japoneses, Satie começou a estudar dança na Escola Municipal de Bailados de São Paulo, aos 9 anos. Começou dançando profissionalmente para a TV Record, em coreografias de Ismael Guiser. Aos 17 anos, participou da primeira temporada do Corpo de Baile Municipal (hoje Balé da Cidade). Lá pôde colocar em jogo diversas facetas do seu trabalho, ao longo dos anos: bailarina, coreógrafa, assistente de direção, diretora artística. Participou da transformação do Balé, em 1974, momento em que o grupo procurava uma identidade nacional e moderna, sob a direção de Antônio Carlos Cardoso – “da dança clássica à moderna, no momento em que as sapatilhas foram deixadas de lado e começamos a dançar de tênis ou pés descalços”. Neste período dançou coreografias de criadores como Luis Arrieta, Victor Navarro, Oscar Araiz, Clive Thompson e de Cardoso. “Estar no estúdio, dançando, talvez seja o lugar onde eu seja mais feliz.”
Sua primeira criação, Shogun (1982), coreografia premiadíssima, dançada ao redor do mundo por várias companhias, foi realizada a convite de Ismael Guiser para uma gala incluindo criações de grandes nomes como Maurice Béjart (1927-2007), Luis Arrieta e Carlos Trincheira. Shogun é uma homenagem a seu avô, mestre Yoshimatsu, que lhe ensinou Yai-dô (arte da espada) e Kembu (dança do Samurai). “Na verdade, ele estava me revelando um olhar diferente sobre a dança, sobre o movimento que vem do interior de cada um de nós. Aprendi uma postura interior que me acompanhará sempre e além.” O espetáculo busca a compreensão entre os significados complementares, na busca do equilíbrio, entre Oriente e Ocidente. Um equilíbrio presente na própria história de Satie, japonesa-brasileira: “ao mesmo tempo em que tenho uma disciplina muito grande, eu também sou muito impulsiva, sou às vezes kamikase, às vezes gueixa”.
A palavra “Shogun” é uma designação do alto comando militar da época do Japão feudal; e o espetáculo explora também a relação entre mestre e discípulo: “não há mestre sem discípulo, um depende do outro, e é exatamente esta dependência a chave para o crescimento. Na fusão do que aprendi com meu avô com a dança moderna, tentei expressar a presença dos meus ancestrais dentro da minha energia; e a união como força que sempre moveu os homens”.
No mesmo ano, participou de um musical que marcou época no Brasil, Chorus Line, produzido por Walter Clark.
Foi a convite de Oscar Araiz que ela seguiu para Genebra (Suíça), em 1983, onde permaneceu por sete anos como bailarina e assistente de coreografia no Ballet du Grand Theatre de Genève. De volta ao Brasil, Satie foi ensaiadora e professora no grupo Cisne Negro, dirigido por Hulda Bittencourt. “Ali tive a oportunidade de aprender mais sobre como tocar uma companhia no dia-a-dia. Foi um momento em que adquiri mais experiência para o que viria a seguir.”
Depois desse período com o Cisne Negro, Satie assumiu a direção artística do Balé da Cidade (1993 a 1996). Seu maior esforço foi procurar uma identidade artística para a Companhia, pela criação de obras que pudessem trazer um acento próprio ao Balé. Estimulado pelo novo impulso, o Balé da Cidade fez sua primeira turnê internacional, dançando em Lyon, em 1996.
Ao mesmo tempo em que dirigia o Balé, Satie foi convidada para ser assessora de linguagens artísticas do município de Diadema. Nos 11 centros de cultura da cidade, ampliou a ação da dança para pessoas de todas as idades e tipos físicos.
A dança em Diadema ganhou força inédita: assim nasce a Companhia de Danças de Diadema, vinculada à prefeitura, que Satie fundou e co-dirigiu (1995 a 2001), ao lado de Sandro Borelli, Rose Maria e Ana Botosso. Além da ampla formação artística dos bailarinos, o projeto abrange um trabalho de integração na comunidade através de oficinas. Para montar a companhia, foram selecionados profissionais que tivessem preocupação social e consciência das dificuldades que enfrentariam, ao desenvolver paralelamente o trabalho de dançarino e de arte educador. O desdobramento das atividades – da produção de espetáculos artísticos à sensibilização e sociabilização por meio da arte- educação em Diadema –, só se faz viável pela força humana e artística dessa ação.
No trabalho da companhia, ressoa o mote de Satie: “todos os corpos podem se expressar, assim qualquer corpo dança”. Foi nesse espírito, também, que ela veio a criar outros projetos: o Grupo Mão na Roda (1999), com direção de Luiz Ferron, para portadores de necessidades especiais; o “Trançando as Pernas”, levando a dança às crianças dos mais distintos lugares; e a Casa da Dança, onde 300 crianças fazem formação em balé.
Na segunda vez que Satie voltou à direção do Balé da Cidade (1999 a 2001), criou a Cia.2, dedicada a ampliar a atuação cênica dos intérpretes mais velhos, com um repertório que aproveitasse ao máximo a experiência acumulada. “Quando eu voltei para a Companhia, ela estava completando 30 anos, mas não estava preparada para atender os profissionais que tinham mais tempo de casa. Bailarinas de 16 anos dividiam o mesmo repertório com um profissional de 45. A experiência profissional é diferente; às vezes, nem é tanto o preparo, mas o desejo é diferente. Eu achei que era importantíssimo criar a Cia.2 do Balé de São Paulo, uma companhia de veteranos: um espaço em que, juntos, eles assumissem o compromisso de difundir a dança de uma forma diferente, divulgar a possibilidade de um novo conceito social em torno desse trabalho”. Para ela, “o pior momento de uma dançarina é não dançar”. E um bom bailarino é aquele que “além de ter consciência do seu corpo, das suas possibilidades, expressa sua alma”.
Satie faz parte da primeira geração de bailarinos que “está envelhecendo dançando, sem deixar de investir no meu corpo e em novas técnicas. É preciso estar sempre se renovando e se informando de tudo. O bailarino é um artesão do corpo”. Em 1999 dançou o solo Retrato: “minha radiografia. Há uma coisa que se mexe dentro de mim desde criança: o conflito interior entre as duas culturas – oriental e ocidental. Minha criação foi permeada pela cultura oriental, falava japonês em casa, vivi os ritos todos. Herdei dali a vontade e a disciplina. E a liberdade de expressão do Brasil”.
Entre alegria e dor, exuberância e constrangimento os passos de Satie projetaram e desenvolveram ações que fazem diferença na dança. “Queria que o dia tivesse 36, 48 horas, queria ter quatro mãos, sinto falta de três cabeças, e meia dúzia de par de pernas, às vezes é difícil ter que se dividir, eu não sei o que pode acontecer amanhã, só temos trabalho e luta para que a dança seja mais trabalhada e bem desenvolvida no nosso país.” Essa fala expressa bem seu sentimento, nas tantas vezes que se dividiu entre suas atividades. Como segue se dividindo: em 2002 coreografou Criação/Kronos para Companhia de Dança do Amazonas (CDA); já no ano seguinte assumiu a direção artística da CDA (até 2005) e a direção artística do Studio3, onde atua até hoje.
Para a CDA criou o Grito Verde (2005), abordando a diversidade da Amazônia, trazendo da cultura local expressões cotidianas aliadas a movimentos espontâneos, inspiradas nos elementos naturais e no misticismo da região. O ponto de partida foi a poesia de Antônio Tavernard, A Voz da Amazônia. Para criar, “eu preciso estar apaixonada, é um momento de muita inspiração, encontro, troca, simpatia e muito querer. Esse conjunto faz com que eu crie bem e supere todas as dificuldades que virão durante o processo de produção. Por trás de um grande bailarino tem uma grande disciplina”.
Com a criação da Cia. Sociedade Masculina (2005), ligada ao Studio3, Satie se multiplica mais uma vez, assumindo a direção ao lado de Anselmo Zolla.
Em 2006 ela criou Tomiko, uma homenagem a sua mãe: “Ao enfrentar o inverno rigoroso, a cerejeira quase morre e renasce. Para mim assim é a minha mãe, uma mulher pronta para renascer”.
Dividindo seu tempo entre criação e direção, Satie imprime na dança, a cada vez, um significado novo, mais denso, vislumbrando um outro lado. Lutando com o câncer nos últimos anos, ela continua exibindo uma incrível, transformadora energia. Ivonice Satie, para todos nós, já virou um nome de algo sem nome, uma forma iressistível de vida, promessa perpétua de realização.

Inês Bogéa

Este texto é parte integrande do encarte do DVD Figuras da Dança Ivonice Satie. Satie morreu dia 12 de agosto de 2008.
 
 

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