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Cia. Tamanduá - Memória em movimento
Inês Bogéa
No rastro do que se foi, na ausência que se torna presença na memória de cada dançarino, Arquipélago Tamanduá inventa outros modos de convívio no tempo. Integrando o projeto Arena Porto Aberto, de hoje até o final de junho, a Cia. Tamanduá --criada por Takao Kusuno (1945-2001)-- apresenta a última criação de Kusuno, Quimera – O Anjo Vai Voando (1999), além de solos e recortes do processo de criação dos dançarinos.
Como informa o coordenador de arte do grupo, Hideki Matsuka, depois da morte de Kusuno a companhia só voltou a se apresentar em 2003, no projeto Vestígios do Butô. Seguiu depois para o Japão, onde dançou Quimera e O Olho do Tamanduá (1995). O Tamanduá da peça hospedou-se na casa de Kazuo Ohno, um dos grandes mestre do butô. Foi uma passagem simbólica, pois Kusuno, que participou ativamente dos movimentos de vanguarda no Japão dos anos 60, trouxe para o Brasil as sementes do butô, na década seguinte.
A Cia. Tamanduá, fundada em 1995, trabalha na fusão das linguagens de teatro e dança, valorizando as manifestações de identidade corporal, através da busca das memórias escondidas de cada um, e da escuta da memória coletiva ancestral. Nos infinitos ciclos de resgate e recriação da lembrança presente no corpo, os dançarinos procuram novas configurações. Em Arquipélago... , cada bailarino dá continuidade ao fluxo da memória de Kusuno.
O espetáculo que abre a temporada é Quimera..., criado em homenagem à mulher de Kusuno, Felicia Ogawa (1945-97). Memórias e realidades da condição humana, num ambiente hospitalar: vida e morte, transformações e retornos. Assim como esse, também Tabi (Viagem), de Emilie Sugai, é um espetáculo “pronto”. O corpo dobrado sobre ele mesmo busca recordações e acolhe surpresas. A partir de seu próprio corpo, Sugai questiona as influências e vivências de uma imigrante japonesa no Brasil.
A integração de outros artistas, de diferentes áreas, está prevista para os espetáculos criados pelos membros da companhia. Da literatura às artes plásticas, a interação aqui reforça identidades na pluralidade.
Além dos trabalhos citados, serão mais sete, cada um coordenado por um responsável, com possibilidade de agregar outros artistas. Sollos, de José Maria Carvalho, se inspira no universo de Guimarães Rosa; Mãos Pés Coração, de Sugai, põe em cena as memórias de sua experiência como coreógrafa no Senegal; Cabaré Butô vai reunir a Cia. Tamanduá em cena, pontuada por vídeos dos ensaios da própria Cia. e/ou espetáculos de variados grupos. Vêm ainda Ovo, de Patricia Noronha; Mudas de Key Sawao; Pequenos Sonhos das Folhas Vemelhas, de Marcos Xavier; e Imagine de Dorothy Lenner.
Tudo aqui traduz invisibilidades. Seguindo nas trilhas da floresta do butô, conteúdo e continente convergem na memória do corpo. Emergem, depois, em outras instâncias, no gesto descoberto de quem dança, no espanto revelado de quem vê.

in Folha de S.Paulo 01/05/2004, 02.06.2010
 
 

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