índice
 
Vestígios do Butô - O butô e seus reflexos na cena contemporânea
Inês Bogéa
No palco: expressões do butô. Nos bastidores: workshops, discussões e investigações; para completar, uma exposição. Várias gerações reúnem-se para esse evento que examina os Vestígios do Butô na cena contemporânea; e também para homenagear Takao Kusuno (1945-2001), artista multidisciplinar radicado no Brasil em 1977.
Kusuno – responsável pela introdução do butô no Brasil, na década de 70 – fundou, em 1995, a Cia. Tamanduá de dança-teatro. Emilie Sugai, uma das integrantes da companhia, ressalta que, para recriar esses trabalhos, os dançarinos usam a “memória corporal”, somada às indicações que Kusuno deixou: “são instruções tão particulares que quando retomamos o trabalho o tornamos vivo. Estamos remontando e revivendo -- é assim que o trabalho ganha força”.
A memória (individual ou coletiva) é um dos grandes temas do butô, que Takao Kusuno procurou encontrar em “seu próprio umbigo”, ao trabalhar com a realidade brasileira. Como lembra Sugai, Kusuno não gostava de rótulos; de modo genérico, dizia que seu trabalho era de dança-teatro. Mas também usava butohteki (butônico), para indicar “a essência da filosofia do butô: a relação de nascimento, vida e morte, os ciclos de vida e transformação... o corpo em proximidade com a terra, extraindo dela a energia para nutrir o mundo físico e o imaginário.”
Ao longo do evento, estarão em cena Yoshito Ohno e Akira Kasai, Ebisu Torii e Mutsuko Tanaka, Yukio Waguri, Mitsuru Sasaki, Ismael Ivo, Renée Gumiel, Marta Soares e a Cia. Tamanduá, compondo juntos um panorama dos caminhos do butô. A programação reúne desde participantes da origem do movimento, como Yoshito Ohno, até membros da segunda geração do butô, como Yukio Waguri, e outros artistas que dialogam, de modo mais ou menos direto, com a dança japonesa.
Waguri fala da transformação do butô: “a primeira geração do butô, ‘anos 60’, era formada por artistas que se rebelaram contra a dança moderna. Dançarinos que se propunham a destruir os dogmas da dança praticada até então. Já na segunda fase, a partir da década de 70, surgiram aqueles que começavam a carreira já inseridos no butô. Mais do que destruir, era importante construir. Atualmente, uma avalanche de informações orbita ao redor do butô. Os jovens acabam gastando boa parte de sua energia organizando essas informações. A complexidade do mundo atual acaba dissipando sua concentração.”
Para ele, o butô agrega “um espaço imaginário, próprio do surrealismo, com outro espaço denotativo, dos teatros Nô e Kabuki.” Em outras palavras, “é como se as representações do Oriente e do Ocidente estivessem presentes no butô. Nos tempos atuais, esta síntese ganha um significado muito grande... A ambigüidade que o butô carrega pode sugerir reflexões sobre o modo de ser japonês”.
São idéias que devem aparecer também nas palestras do ciclo: Christine Greiner (PUC/SP) falará sobre os vestígios do butô no Ocidente; Eliane Robert Moraes (também da PUC), sobre a experiência artística da fragmentação corporal proposta por George Bataille e Hans Bellmer; e o pesquisador japonês Shigehisa Kuriyama estudará distinções entre a anatomia ocidental e a oriental.
Aproximando-se do butô por outro viés, Cassiano Sydow Quilici (PUC) vai invocar o teatrólogo Antonin Artaud, mais especificamente o “corpo sem órgãos”: “A expressão ‘corpo sem orgãos’ designa outro modo de apreensão do próprio corpo. Ela implica na dissolução de automatismos e representações que temos do ‘organismo’, pelo refinamento da percepção de sensações ínfimas, oscilantes, não codificadas. O ‘corpo sem orgãos’ pode ser entendido também como operação de ‘descolonização’ do corpo, alvo de tantas formas de controle na atualidade.”
Na exposição O Universo de Kazuo Ohno: Imagens e Mensagens Fotografias + Textos + DVD, serão apresentadas 24 fotos de Yuji Kusuno (irmão de Takao), acompanhadas de 24 poemas do livro Palavras de Treino de Kazuo Ohno, traduzidos por Tae Suzuki. Durante a exposição, serão exibidos os filmes Kazuo Ohno - A Beleza e a Força, Um Bom Deus e Elogio a ‘La Argentina’ [no Espaço Cultural Fundação Japão].
Tudo somado, serão bem mais que vestígios do butô. Se a dança e o teatro contemporâneos têm tantos laços com o butô, não é pela atração pitoresca do estranho. O fascínio é de outra ordem: o butô está presente em muitas vertentes da produção atual, nutrindo de dentro o que se tem, abrindo caminho para o que virá.

in Folha de S.Paulo 02/09/2003, 02.06.2010
 
 

Refazenda fez