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Entrevista com Yoshito Ohno - Das trevas às flores
Inês Bogéa
Vida e morte, sexualidade, metamorfoses: são temas recorrentes no butô. Surgido no final da década de 1950 no Japão, o butô explora a consciência das transformações do corpo e sua relação com o ciclo da vida. Muda a perspectiva do olhar – o corpo em risco responde aos mais simples movimentos, com particular intensidade, no tempo e no espaço. Em setembro estará no Brasil um mestre japonês, Yoshito Ohno, para participar do evento Vestígios do Butô.
Yoshito, 65, é filho do mestre dos mestres, Kazuo Ohno (1906), e já se apresentou no Brasil em três ocasiões com seu pai. Sua quarta visita foi no Encontro Mundial das Artes Cênicas, em 2000, onde fez uma palestra dançada.
Assim como seu pai, Yoshito participou da origem histórica do butô, dançando em Kinjiki (Cores Proibidas) de Tatsumi Hijikata (1928-86). Inspirado no romance homônimo de Yukio Mishima (1925-70), esse é considerado o primeiro espetáculo de “ankoku butô” (dança das trevas) --mais tarde apenas butô (“bu”, dança + “toh”, pisar). Na cena com pouca luz um duo de Hijikata e Yoshito Ohno: torsos nus e cabeças raspadas, som da respiração, dos passos e gemidos de um ato sexual, espasmos e movimentos decompostos. O espetáculo provocou uma revolução, pela expressão direta da violência e da sexualidade. Punha em cena a mudança de expressão que ocorreu no Japão do pós-guerra.
Uma nova coreografia, Florescerei Para Ti, Florescendo Orgulhosamente, terá estréia aqui, com a participação também de Akira Kasai.

Como você se envolveu com a dança e, em particular, com o butô?
Quando eu tinha 12 anos, Kazuo me disse para fazer suas aulas. Antes disso havia visto suas primeiras performances, incluindo Grito do Demônio e Riso, e ficara muito impressionado. Daí em diante resolvi seguir suas aulas.
Eu me envolvi pela primeira vez com o butô quando encontrei Hijikata e participei de Kinjiki (Cores Proibidas)
Que memória você tem deste espetáculo?
Quando começamos a ensaiar, Hijikata não explicou nada; simplesmente me dizia “enrijeça o seu corpo e fique em pé”, “ande, apenas” etc. Eu estava perdido, pois era a primeira vez que fazia algo assim, completamente novo para mim. Eu duvidava do que fosse, mas era capaz de segui-lo muito naturalmente. Pude mesmo participar da performance sem entender nada. Depois perguntei a ele o que a peça significava e ele respondeu que era sobre um relacionamento de verdade.
Em que aspectos as formas tradicionais japonesas (arte, literatura, religião) inspirou ou inspiram sua dança?
A tradição é parte da nossa vida. Em vários aspectos estamos cercados de Kabuki, Noh, Kagura, Obon etc. na nossa vida diária. Pratiquei o teatro Noh por um ano, por sugestão de um amigo do Mishima, depois da performance de Cores Proibidas.
O que mudou no butô desde quando foi criado até hoje?
A situação social é diferente. O Japão mudou rápida e drásticamente nestas décadas. Hijikata nasceu em Akita, distrito de Tohoku. O clima naqueles dias não era o mesmo de hoje – era muito mais frio e nevava muito. Hoje em dia ninguém morre de fome. O frio e a fome são elementos críticos para as pessoas pensarem no corpo. Hoje isto não existe. Nossa relação com o corpo está enevoada.
Também tínhamos complexo em relação ao corpo ocidental, o que desapareceu, em muitos aspectos, com a nova geração. Acredito que o butô tenha começado baseado num complexo de inferioridade, que não existe mais na cabeça das pessoas. O butô está numa situação muito difícil agora que suas bases quase desapareceram.
O que é crucial par alguém se tornar um “butoka”?
Lembro do que Hijikata me dizia freqüentemente nos anos 60: “Não é fácil viver a vida; se você não encarar as dificuldades, não estará qualificado para fazer butô”. Acredito que isso é crucial. A coisa mais importante é viver a vida. Eu penso que isso seja também uma ideologia na nossa tradição japonesa: a arte deve ser fundada na vida, não na técnica.
Nos seus workshops no Japão, você chegou a desenvolver um método?
Acho que sim; mas para iniciar um workshop, não preparo nada. Quero me concentrar no encontro com outro indivíduo. Isso deve ser o ponto de partida para fazer nascer algo. Busco a qualidade particular de cada pessoa e crio algo para a própria pessoa.
Como é seu trabalho com Akira Kasai?
Kasai é discípulo de Hijikata e Kazuo, como eu. Ele é bem próximo de Kazuo pois enfatiza a improvisação, enquanto eu estou mais interessado na forma. Estou na maior expectativa para trabalhar com ele.
Quando você esteve no Brasil em 2000, falou da relação de seu trabalho com as flores. As flores são elementos recorrentes na sua dança?
Em 1969, fiz meu primeiro concerto solo. Naquele tempo, Hijikata escreveu na nota de programa que “a essência do Yoshito são as flores e os pássaros”. Escreveu isso categoricamente --e eu aceitei. Seja o que for que eu faça, acredito que esteja relacionado profundamente com flores e pássaros.
Que papel a música tem na sua dança?
Sempre penso sobre a música. O que é a música para mim agora? Primeiro preciso achar a música na minha vida, depois a guardo em mim. Ela precisa se tornar parte de mim.
Como está seu pai? Ele continua dançando?
Ele dança todos os dias. Encontra pessoas e começa a dançar. Esta é sua vida. Assim ele continua sendo quem é.
Quero agradecer de todo coração a consideração de vocês no Brasil por Kazuo. Eu adoro o Brasil.



in Folha de S.Paulo 31/07/2003, 02.06.2010
 
 

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