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Morte e vida se alternam e se completam
Inês Bogéa
Kazuo Ohno (1906-2010) condensava o tempo no movimento. Para ele era preciso suportar as pressões ao máximo, depois envolver-se no movimento e com a energia acumulada “elevar-se, na água da dança, como o linguado acima da areia”.
Ohno começou a dançar aos 43 anos, e desde então não parou mais, mesmo nos últimos anos, na cadeira de rodas. Como ele mesmo dizia, “mover-se é procurar vida”.
Um verdadeiro mestre da dança, ele nos transportava com seus gestos e sua presença até outro espaço, onde se conectam o arcaico e o atual. Foi um grande artista do butô -- um estilo nascido no ambiente da vanguarda japonesa em fins da década de 1950, como resposta aos horrores da bomba de Hiroshima. O corpo e suas metamorfoses, o claro e o escuro, as memórias individuais e coletivas, a sexualidade, o inconsciente e o grotesco são temas recorrentes dessa forma de arte, que mudou a maneira de se pensar a dança no mundo. “No butô os mortos podem se transformar em força vital.”
Kazuo Ohno esteve no Brasil três vezes: em 1986, 1992 e 1997, transformando o entendimento da dança por onde se apresentou. Por aqui ele apresentou “Mar Morto”, “Suiren” (“Ninféias”), “Ka Cho Fu Getsu” (“Flor, pássaro, vento e lua”), “Tendoh Chidoh” (“Caminho no céu, caminho na terra”) e sua peça mais emblemática, “Admirando La Argentina” (1977) onde encarnava o “amor e a dor da vida cotidiana”.
Para ele há sempre algo começando e algo terminando: morte e vida se alternam e se completam. Uma dança da simplicidade, onde a força surgia devagar e invadia os sentidos arrebatadoramente.
“Se a vida existe é porque a morte é viva. Se a morte é presente é porque a vida está lá.” Na cena ele se via cercado dos mortos e de espectadores. Agora vida e morte redobram-se, dividem-se e multiplicam-se na nossa memória, levando cada um a compreender o misterioso papel da arte: “o início é o fim e o fim é o início”.
in Folha de S.Paulo, 02/06/2010, 03.06.2010
 
 

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