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Cloud Gate - Ilusão e realidade
Inês Bogéa
Toneladas de grãos de arroz cobriam todo o palco, onde um dançarino desenhava círculos concêntricos com um arado. Esta imagem ficou marcada na memória de quem assistiu ao espetáculo Songs of the Wanderers (Canções dos Peregrinos, de 1994) da Cloud Gate Dance Theatre, de Taiwan, no ano passado. A companhia volta a cartaz no mesmo Teatro Alfa, de 18 a 21 de novembro, com Moon Water (Água Lunar, de 1998), que completa cem apresentações no dia 19.
A Cloud Gate foi fundada em 1973 pelo seu coreógrafo e diretor Lin Hwai-min (1947- ). O nome da companhia, Portal da Nuvem, faz referência a uma dança ritual chinesa.
Hwai-min, que estudou dança clássica asiática, Tai Chi, meditação, dança moderna e clássica, se diz seduzido pela dança desde cedo que viu pela primeira vez o filme Sapatinhos Vermelhos, aos cinco anos de idade. Cursou jornalismo e já tinha publicado dois livros de ficção com 22 anos. Quando era estudante de pós-graduação no Programa Internacional de Literatura da Universidade de Iowa (EUA), Lin foi em busca da pioneira da dança moderna Martha Graham (1894-1991), em Nova York, e estudou também em sua escola. De volta a Taiwan, criou sua companhia.
Em 1999, Hwai-min criou o Cloud Gate 2 para incentivar novos coreógrafos, realizando turnês pelos campus universitários e comunidade rurais de Taiwan. Ele se diz influenciado, não exatamente pela técnica de Graham, mas pela idéia que lhe dá base. “Temos um background comum: o teatro oriental e a literatura. O que fazemos hoje vem da tradição das disciplinas corporais chinesas.” Em Moon Water, a influência mais direta vem do Tao Yin, uma forma muito antiga de Tai Chi. Os dançarinos “partem desse terreno de energia, que a platéia pode sentir”.
Trabalhando sempre na fusão de estilos tradicionais da cultura asiática com material contemporâneo, e dando ênfase a elementos espirituais, a Cloud Gate tem se apresentado regularmente pela Ásia, Europa e Estados Unidos. Em 2003, a crítica de dança do jornal The New York Times, Anna Kisselgolf, escolheu Moon Water o melhor espetáculo do ano. Três anos antes, Hwai-min fora nomeado um dos “coreógrafos do século 20” pela revista Dance Europe, e eleito a “personalidade do ano”, pela Ballet International.

Que tipo de aula os seus bailarinos fazem no dia-a-dia?
Os dançarinos chegam às 10h30 e saem às 18h30. Ao longo do dia, são treinados em múltiplas disciplinas. Praticam regularmente dança moderna e balé clássico, mas a maior ênfase é em Chi Kung, Tai Chi, artes marciais e meditação. Há aulas diferentes a cada dia --como se falassem diferentes línguas. Mas quando coreografo não sigo o roteiro das aulas. Apenas ensaio, me valendo do corpo desses bailarinos, tão bem trabalhados.
Onde exatamente fica a sede da companhia?
Está a 45 minutos de Taipei. No pé de uma montanha, onde podemos ver o rio. Estamos muito longe do trânsito, temos muitas árvores e muito espaço para meditar. Exploramos muito o meio ambiente para criar um trabalho como Moon Water.
O que você diria sobre a relação entre energia e corpo, na dança que você faz?
Aí está a chave da companhia. Ao fazermos Tai Chi, meditação e Chi Kung, nós ficamos mais alertas para o Chi, que é a energia interna. Acreditamos que cada movimento começa no centro do torso, e que a energia que está dentro do torso fluirá para fora. Essa energia direciona nossos movimentos.
É isso o que se espera ao trabalhar com este tipo específico de movimento?
A tentativa é captar a energia --e fazer com que a platéia a perceba. Em Moon Water. trabalhamos com diferentes sentidos do tempo e dinâmicas do movimento. Eu acredito que, em Moon Water, depois de três ou quatro minutos a platéia já está tocada pela energia. Fica tudo intensamente silencioso e calmo, e todo o teatro imerso naquilo.
Moon Water não tem uma história, mas acho que a beleza dos movimentos, junto com a música de Bach, a água e os espelhos, tudo remete a uma unidade, que emociona as pessoas.
Por que Bach (1685-1750)?
Não poderia ser outra música. Porque é muito pura, e é isso o que quero.
A experiência mais atemorizante que já tive foi a estréia internacional de Moon Water, na Ópera de Berlim, que tem três mil lugares. Sei que lá estão muito familiarizados com as Seis Suítes para Violoncelo de Bach. Estava assustado, pois não sabia se iam gostar do que fiz. No final, aplaudiram 20 minutos de pé e percebi que tinha passado no teste.
Há algo de especial na versão que você escolheu?
Sim. Eu não escolhi Bach apenas, mas especificamente esta interpretação, do violoncelista Mischa Maisky. Normalmente os músicos tocam esta peça num estilo barroco. A versão de Maisky é mais romântica: ele exagera e espicha os baixos, e alonga a linha da música. Então não escolhi a música só por sua pureza, mas pela gravidade. Que no Tai Chi é algo de que se precisa, realmente pegar as raízes.
Esta música nós dá o chão, nas notas profundas podemos penetrar na terra, da à maneira dos movimentos asiáticos. A extensão da linha da música nos dá tempo para a expansão dos corpos. O Bach de Mischa Maisky nos permite ir de encontro e depois surgir do chão, através daqueles movimentos que se iniciam no tronco.
Existe um significado especial no título?
Na realidade, sempre que coreografo lido com o movimento, é só isso. Mas você precisa de alguma desculpa para dar direção às coisas. A imagem de Moon Water é muito comum na cultura chinesa: a lua refletida na água e a flores refletidas no espelho, ilusões, aquilo que não é real. Falamos aqui de coisas reais e ilusórias, falamos do movimento com e sem efeitos. E esse contraste se traduz de forma metafórica pela lua, pela água e pelas flores.
O único cenário são espelhos, grandes espelhos em diferentes lugares. Quando os bailarinos se movem, a platéia pode também ver o reflexo acima deles. No final, o chão onde os bailarinos dançam está coberto de água, onde suas imagens também se refletem. E quando os bailarinos saem, o espelho reflete um chão de água, que é puro vazio --sentimos a energia do chão. Depois a música termina e a platéia pode ouvir só o barulho da água.
Como os dançarinos se sentem dançando na água? O que muda em termos de percepção corporal e do movimento?
Nosso treinamento é sempre voltado para o equilíbrio e o controle, depois a fluidez. Então não é diferente. Com ou sem água, os bailarinos não estão se apresentando para uma platéia. Se você estiver bem perto, verá que seus olhos estão semi-cerrados. Eles fecham os olhos, pois internalizam seus focos dentro do próprio corpo, através do movimento da energia. Para a maioria dos dançarinos, eles nem estão fazendo uma performance, mas sim uma jornada de meditação.
Qual é o ponto de partida para seus trabalhos?
Muito simples: dança é dança, e através dos diferentes movimentos do corpo tenho que imaginar algo que seja interessante para os dançarinos.
Seus últimos trabalhos Cursive I (2001) e Cursive II (2003) trazem a idéia do gesto inscrito no espaço. Você poderia fazer um paralelo da dança com a caligrafia?
Claro, porque a caligrafia também é uma fonte do movimento da energia. Através do movimento do escritor, a energia que começou em seu corpo passa por sua mão e pelo pincel, e escreve. O resultado que vemos são traços da energia do escritor. Esta é a razão pela qual fiz essas duas coeografias, que lidam principalmente com a caligrafia. Estou trabalhando em Cursive III, para compor uma trilogia.
Na sua dança, como o Oriente e o Ocidente podem se nutrir um ao outro?
Na minha maneira de ver não há Ocidente e Oriente. Pessoas como eu, em Tapei, tanto usam a internet como vão ao templo, tanto tomam café expresso quanto o chá chinês, que leva muitas horas para ser preparado. E não há conflito. Meu trabalho é feito desta perspectiva de vida e de cultura. Para mim Bach, é parte da minha vida --não penso mais que ele seja alemão.
Neste espírito, como você vê as atuais mudanças na China?
A China está se modernizado, em todas as partes. Penso que a maioria das pessoas poderá ter uma vida melhor com o crescimento da economia – melhor educação, melhor vida intelectual, o que significa melhores condições para a arte.
in Folha de S.Paulo, 27.10.2004
 
 

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