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Cloud Gate - Gestos reververam no espaço
Inês Bogéa
Figuras marcantes se movem em meio a espaços vastos, que se tornam ainda mais vastos pela imagem refletida nos espelhos. Moon Water (Água Lunar, 1998), do coreógrafo Lin Hwai-Min, que estreou quinta no Teatro Alfa, com sua companhia Cloud Gate Dance Theatre of Taiwan, decanta lenta e continuadamente os movimentos, mantendo tudo em suspenso sobre um chão de água. E multiplica nossa ilusão num infinito de miragens espelhadas.
Sobre um cenário simples e forte --pinceladas brancas no piso negro formando um círculo concêntrico-- Moon Water começa com um solo masculino no meio do palco, refletido num espelho no alto à esquerda. Surge uma bailarina, que espelha ela mesma e desenvolve o duo, em movimentos densos. Aos poucos vão entrando outros bailarinos, formando um grupo coeso e desenhando outro cenário.
À medida que a coreografia avança, os espelhos aparecem em diferentes posições, refletindo parcial ou totalmente a cena --solos, duos, trios e grupos, num fluxo contínuo da direita para a esquerda, com inúmeras entradas e saídas.
Círculos e caminhadas são complementados pelo curso da água, que começa a escorrer do fundo do palco, fazendo do chão outro espelho. Na última cena, só um reflexo cobre o fundo do palco, enquanto saem vagarosamente os dançarinos. Resta o som da água, com as imagens refletidas.
Corpo muito abaixado, joelhos dobrados e costas arqueadas; ou pernas alongadas e gestos amplos. Os bailarinos dançam com fluidez, traçando linhas que subsistem longo tempo no espaço. Cada gesto concentra uma energia que reverbera no espaço. Os gestos partem de um movimento ondulado do centro do torso, que se prolonga pelos braços e pernas. Sua base vem do Tai Chi, do Chi Kung e das Artes Marciais, com ênfase no controle da respiração.
Trilha musical: Seis Suítes para Violoncelo de J. S. Bach (1685-1750), na interpretação de Mischa Maisky. Os graves alongados do russo dão uma sobriedade profunda aos gestos, que ora marcam os acentos, ora acompanham a extensão da linha melódica.
Mundo difuso, natureza em formação, vigor de uma dinâmica de forças. Uma espécie de respiração, que nos envolve com seu vai e vem, até ensinar alguma coisa sobre o sentido inescapável e indecifrável da vida, no espelho.
in Folha de S.Paulo, 20.11.2004
 
 

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