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De Corpo Para Corpo: A Dança de Luis Arrieta
Inês Bogéa

Luis Arrieta vê a dança como forma de vida: “a dança é movimento, mudança, transformação do indivíduo e da sociedade, pontuando a existência por meio da percepção do mundo pelo corpo e pelas sensações”. Assistir a um espetáculo de dança, para ele, não é menos que isso: vivenciar e incorporar a existência pelo corpo em movimento.


            Arrieta é um artista poeta – pensando na poesia como forma de suspensão do cotidiano –, e místico, no sentido de perceber as forças que nos suplantam e nos atravessam: “a oração do corpo que pede a luz, que o transforma para além dos seus limites. O corpo transformado e iluminado se oferece despido de toda a pele. Humilde e orgulhoso da grandeza recebida”.[1]


O coreógrafo argentino iniciou seus estudos de dança aos 21 anos em Buenos Aires, sua cidade de origem. Trabalhava como gerente de uma grande empresa multinacional quando um amigo lhe convidou para fazer um teste de seleção para bailarinos na Escuela del Ballet Contemporáneo de la Ciudad de Buenos Aires, dirigida por Oscar Araiz. Foi uma transformação, no reencontro com seu próprio corpo: “pediram para levar a perna à frente, segurando na barra e estender meu tronco e a cabeça para trás. A sensação foi indizível,  recuperar o meu corpo, me encontrar com o universo. Uma mudança radical na maneira de perceber o mundo, a mim e a minha maneira de pensar”. [2]


De origem humilde, pai operário e mãe dona de casa, teve na simplicidade e na ascendência suas maiores fortunas: “Sou o típico criollo. Meu pai quase nasceu na Espanha e minha mãe tem origem indígena. Venho de uma família muito silenciosa, onde se reconhecia a situação observando o movimento – o desenho dele no espaço, no tempo, a dinâmica e a energia com que é realizado”. Assim, desde cedo conheceu as coisas para além do dito; e considera este aprendizado familiar sua escola na arte da composição – quer dizer, “na arte de contar alguma coisa”.


A sua curiosidade, espírito observador e a total ignorância -- ou pelo menos a não-interferência -- de qualquer preconceito, aceitando aquilo que os grandes mestres lhe diziam, foi, segundo ele mesmo, o que mais o ajudou na vida. Sua primeira professora, Ilse Wiedmann, lhe ensinou a base para entender a dança. “Quando você souber onde é a frente, onde é atrás e onde é o lado, você será um grande bailarino, porque para saber isso tem de saber onde é o seu centro”, ela costumava dizer.


Arrieta completou sua formação em técnica clássica sob a orientação de mestres como Ismael Guiser, Tatiana Leskova, Yellê Bittencourt, Desmond Doyle, Hugo Delavalle, Alphonse Poulenc, Ady Addor, Ricardo Ordóñez, Oleg Briansky e Mirielle Briane. Estudou também técnica moderna com Yoshi Morimoto e Odette Flaks, entre outros.


Ele passaria pela Compañía de Shows de Nacha Guevara, antes de vir em 1974 para São Paulo integrar o Ballet Stagium, escolhido por Marilena Ansaldi, que fora a Buenos Aires à procura de dançarinos. Ainda em 1974, no processo de transformação do Corpo de Baile Municipal,[3] que sob a direção de Antonio Carlos Cardoso torna-se uma companhia contemporânea, Arrieta dá início a uma trajetória longa e multifacetada com o Balé da Cidade. Como bailarino, ele também atuaria no Ballet Contemporâneo da Cidade de Buenos Aires, no Balé de Dalal Aschcar e no Hessiches Stadtheater (Wiesbaden/Alemanha), além das produções independentes.


Sua passagem entre as diferentes atividades do universo da dança sempre aconteceu de forma natural: “entendo as diversas atividades como um todo integrado”. Foi em 1977, num workshop organizado por Antonio Carlos Cardoso, no Corpo de Baile Municipal, que Arrieta despontou como coreógrafo, com Camila (espetáculo que elabora a morte da sua avó materna). Na verdade, ele já coreografava e dançava desde adolescente, com suas irmãs, no quintal de sua casa, e nos espetáculos anuais de seu tempo de ginásio em Buenos Aires. Camila, portanto, estava sendo preparada muito antes de chegar ao palco.


Desde então viria a criar mais de 100 obras, trabalhando com os mais variados temas e gêneros musicais, para diversas companhias brasileiras e internacionais, como o Balé da Cidade de São Paulo, Cia. de Dança Cisne Negro, Balé Teatro Castro Alves, Ballet do Teatro San Martin (Argentina), Hessiches Stadtheater, Ballet de Genebra, Ballet Nacional de Cuba, Ballet San Juan (Porto Rico), Ballet do Teatro Municipal do Rio de Janeiro e Ballet da Cidade de Niterói. Mas ser coreógrafo independente ainda hoje é algo árduo para Arrieta, um constante recomeçar, ou um leva-e-traz. “O que aprendo com um grupo levo para o outro. Tento encontrar mil maneiras de dizer a mesma coisa, pois tenho mil bailarinos e cada um tem um jeito de entender”. Arrieta foi também co-fundador e diretor artístico do Elo Ballet de Câmera Contemporâneo de Belo Horizonte (1982).


Sua trajetória está intimamente ligada ao balé da Cidade de São Paulo, ora como coreógrafo-convidado, ora como diretor-coreógrafo, em 1981 (assistente de direção ao lado de Cardoso) e de 1986 a 1988.


Para o Balé da Cidade de São Paulo, criou várias obras, entre elas Testemunho (1978), Presenças (1979), La Valse (1992), Magnificat (2004) e Umbral (2008). Arrieta fez também releituras de obras clássicas como Les Noces, A Sagração da Primavera e O Pássaro de Fogo, propondo, a seu modo característico, toda uma rede de alusões abstratas, de símbolos e metáforas dançadas.


Depois do Balé da Cidade, o Balé Castro Álves de Salvador é a companhia que tem maior número de obras suas. Desde 1985, quando criou Sanctus, uma das mais importantes peças do repertório da companhia, sua relação se estende até hoje com obras como Mandala (1986), Berimbau, remontagem de Trindade (1993), Orixá (1995), Noch Einmal (1997), Uaikuru/Índio (2008).


“Às vezes o público pensa que, para ver um espetáculo de dança, tem de ser conhecedor. Mas o ser humano nasce com um poder imenso de todas as maneiras de comunicação do corpo. Formas, cheiros, linguagem própria do corpo. A dança se assiste com o corpo, de corpo para corpo. O público lê com os olhos os movimentos, mas é seu próprio corpo que os compreende e os revive. Basta se entregar com disponibilidade, sem amarras. O movimento surgiu antes da fala. Movimentar-se é viver.”


Uma coreografia surge de muitas maneiras, mas principalmente das inquietações humanas. “A composição artística é como um baú da memória, ela se forma daquilo de que se vai impregnando na alma, vida afora”. Pode ser sugerida por uma música, um movimento, uma imagem parada, uma expressão no rosto, um timbre de voz. Pode surgir súbita e espontânea, ou voltar de um tema recolhido e interiorizado. “Nosso corpo (a dança) é nossa forma de linguagem que também nasce ininterruptamente.”[4]


Sua dança não procura replicar as impressões do cotidiano, mas sim criar experiências extremamente intensas, em que os sentidos sejam ativados e a relação humana mais profunda se estabeleça num diálogo entre artista e público.


Arrieta não participou como bailarino de suas próprias coreografias para grupos, mas na década de 1990 retorna aos palcos como intérprete. Para ele, a dança tem a potencialidade de abrir espaços de tempo: “como dancei pouco, sempre tenho necessidade de dançar, danço na sala, no banheiro, na cozinha. Não tenho muita força, mas ao mesmo tempo gosto muito de dançar – as energias circulam no corpo, é a melhor impressão que o ser humano pode ter, a dança nos faz mais verdadeiros. Todo mundo deveria dançar! O poder público deveria ser dirigido por um bailarino. Como diz Nietzsche: ‘só acredito num deus que dança’”.  


Mesmo entendendo que o corpo é feito para se comunicar, ainda lhe custa muito subir no palco: “Dá muito medo, porque ainda dependo da aceitação, do olhar externo; ao mesmo tempo me faz muito bem. Dançar ‘velho’ é ainda uma dor muito grande, pois estou passando por uma ponte. Fico apavorado na hora que entro, mas depois não quero mais sair. Me volta a criança no sentido da percepção que eu tinha”. O palco é uma caixa que permite ser, transformar, é um lugar de extrema liberdade. O palco é o lugar onde se pode ir a fundo; no palco se aprende a expor, a ocultar e a revelar a parte mais ampla da nossa conexão com o universo. “O palco é o lugar de uma total entrega”.


As palavras que ele escreveu há vinte anos, no programa de Mar de Homens (para o Balé da Cidade) servem de mote não só para sua vida – vivida com exemplar integridade nessa tensão entre resguardo e dádiva –, mas para a paixão comum de todos nós, iluminados por este artista da dança: “O mundo se revela para mim pleno de movimento, de energia. São os homens que dançam no mundo, e é a dança dos homens que faz o mundo. Este mar me mostra o todo, me mostra o outro, mostra-me a mim mesmo”.


 








[1] Sobre o espetáculo Sanctus Suite (Oração do Corpo) para a Companhia de Dança da Bahia (1987) e para o Balé Teatro Castro Alves (2005).



[2] Entrevista concedida à autora nos dias 11 e 13 de setembro de 2008.



[3] O Corpo de Baile Municipal passa a se chamar Balé da Cidade de São Paulo em 1981.



[4] Em programa de Nascer ou Algumas Profecias Cotidianas e Eternas (1982)


 

in Encarte Figuras da Dança, 08.03.2011
 
 

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