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Eva Yerbabuena – O coração saiu sozinho
Inês Bogéa
Perguntas sem respostas e sentimentos contrastantes organizam a cena flamenca de A cuatro voces (2004), de Eva Yerbabuena, que estreou sexta passada no Teatro Alfa. Em cena, 8 músicos e 11 dançarinos tramam e destramam questões essenciais da vida e – com fatalístico acento espanhol – da morte. Melismas vocais, movimentos dos braços e do tronco, batida dos pés no chão, harmonias alteradas: tudo revela sutilezas que se precisa aprender a perceber, para além da força e vibração da dança.

Ainda antes do começo, quando o público está entrando, dois homens já estão estendidos no chão. Um deitado, o outro fazendo alguns movimentos, bem estilizados, para não dizer exagerados; entra um terceiro e se dobra de costas sobre a cadeira com um livro. Os avisos do tempo que falta para o início e de atenção com o celular vêm acompanhados de despretensiosamente pretensiosos poemas-piadas (narrados em português de Portugal). Para a platéia paulistana, soou como uma graça meio sem-graça, muito distante das intensidades seguintes.

Na primeira cena, propriamente dita, ao som de Clair de Lune de Debussy (1862-1918), Yerbabuena narra com seu próprio corpo (mais uma cadeira e um par de sapatos) o drama de uma mulher cujo marido foi morto. A conexão dessa música com os textos cantados, depois – letras de Horatius Garcia e música de Paco Jarana, inspiradas na poesia de quatro autores espanhóis do século 20: Miguel Hernández, Vicente Aleixandre, Garcia Lorca e Blas Otero, cada um encarnado por um cantor – não parece clara. Mas misturas e contrastes são um elemento marcante desse flamenco renovado de Yerbabuena, que olha para trás e para a frente ao mesmo tempo, abarcando, por exemplo, a música de Debussy e o teatro de Robert Wilson.

Durante toda noite o palco é riscado pela luz de Raul Perotti. São retângulos, quadriculados e círculos que contribuem muito para a dramaturgia, com seu jogo expressivo de luz e sombra. O próprio desenho da cena, dividida no meio por uma cortina de tule preto que impede a passagem de luz e por vezes revela os músicos e/ou outras cenas por trás, cria densidades novas no palco.

Diversos ritmos do flamenco (fandangos, seguiriya, bulerias, alegrias) pouco a pouco vão se sucedendo até que a platéia se vê tomada por esse mundo, onde as diferenças se concretizam expressivamente em batidas dos pés, pequenos gestos das mãos, sinuosidades dos corpos e do canto, sem falar no virtuosístico domínio dos instrumentos (dois impressionantes violões, acima de tudo, expandindo o gênero para novos territórios, mais modernos, da harmonia). Assim como os ritmos são atacados com incrível precisão nos “rasgueados”, também o corpo que dança desenha tudo que se ouve com acentos milimetricamente justos.

Que a companhia apresentou um flamenco consistente é o mínimo que se pode dizer, a despeito dos pequenos deslizes. Mas a grande força da noite esteve mesmo nos solos de Yerbabuena. Ela traz nas mãos uma multiplicidade de volteios que ganham amplitude nas torções de seu corpo. É uma dança agridoce, inquieta e intensa, carregada de pulsões (em todos os sentidos do termo).

O combate da vida e da morte é um tema por excelência do flamenco. Associado à poesia moderna, com conotações políticas antigas e recentes, e neste novo contexto musical e cenograficamente atualizado, revitaliza as marcas clássicas do flamenco como dança que acende e consome as paixões. A prova dos nove é o coração de Yerbabuena, que se expõe ali aberto, à procura de ecos no escuro – seja no fundo do palco, onde afinal desaparece, seja à sua frente, onde quem desaparece somos nós.
in Folha de S.Paulo, 28.11.2005
 
 

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