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Livro intercala histórias da dança e do país nos anos 1970
Iara Biderman
Brasil, 1974. O general Ernesto Geisel (1907-1996) era o novo presidente da República do regime militar instaurado dez anos antes --e que ainda duraria uma década. A abertura "lenta e gradual" rumo à democracia ainda não tinha começado.

Nesse clima e cenário surgia o Galpão, primeiro espaço dedicado à dança a receber subsídios do governo, em atividade de 1974 a 1981.

A história desse espaço --uma sala no Teatro Ruth Escobar, no bairro da Bela Vista, em São Paulo-- é o tema do livro "Caminhos Cruzados", de Inês Bogéa.

Bailarina e pesquisadora, Bogéa mergulhou na difícil tarefa de rastrear e documentar a memória da dança. A escolha do local e do período é significativa.

Enquanto a ditadura reprimia a liberdade de expressão, a verba pública no teatro de dança inaugurado por iniciativa da bailarina Marilena Ansaldi fazia fermentar um novo tipo de experimentação e contestação criativa.

Além da resistência artística pontual à censura, o Galpão refletia todo um movimento que estava mudando a visão e a prática da dança no mundo, como é contextualizado no livro.

A abertura da escola de Maurice Béjart, na Bélgica, a nomeação de Pina Bausch como diretora do Balé da Ópera de Wuppertal, na Alemanha, os grupos de dança-improvisação, em Nova York, entre outros movimentos da década de 70, influenciavam e convergiam com as pesquisas feitas no Galpão.

"O espaço surgiu nesse caldo de cultura, congregando todo o movimento de experimentação da dança contemporânea", diz Bogéa à Folha.

Foi também nesse caldo e nesse galpão que pesquisaram, ensaiaram e se apresentaram os nomes fundamentais da dança brasileira contemporânea.

Eles estão, de várias formas, em "Caminhos Cruzados": nos textos que contam as fases da história do espaço, nas fotos de acervos particulares e públicos, nos depoimentos de artistas que trabalharam no Galpão, em extratos de críticas publicadas na imprensa ou na cronologia com as fichas técnicas dos espetáculos.

CAMINHOS CRUZADOS
AUTORA Inês Bogéa
EDITORA Edições Sesc SP
QUANTO R$ 50 (136 págs.)
in Folha de SPaulo, 13.01.2015
 
 

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